
Fonte: blog.cicloceap.com.br
Josimara Neves, psicóloga e
escritora
(CRP-04/37147)
Marília Neves, professora e
escritora
Contato: psicoletrandojm2013@gmail.com
Vida e morte são dois lados de uma mesma moeda, afinal,
só se morre porque se vive, e todos sabem que a morte é uma das poucas certezas
que se tem na vida. Ninguém sabe onde, nem quando e, muito menos, de que forma
ela ocorrerá, mas tem ciência de que disso não há como escapar. Falando assim, até
parece fácil entendê-la, contudo não é. A morte é um assunto tabu com o qual poucas
pessoas sabem lidar, desconhecendo a maneira mais adequada de discorrer sobre
ela. Basta se lembrar de algum velório ao qual tenha ido que se recordará das pessoas
quietas, chorando, inconformadas. Recordará, também, de algumas sem saberem o
que fazer quando uma criança, ainda muito pequena, chorava desesperadamente ao
lado do ente querido que estava sendo
velado. E por que isso acontece?
É difícil ter uma única resposta, no entanto, o que se deduz
é que a morte é tão pungente de se falar devido à dor da perda, da separação,
da despedida sem volta, do “tchau definitivo” que chamamos de “adeus.” Não
estamos preparados para nos despedir, não porque não tivemos tempo para isso,
mas porque não fomos treinados para conviver com tal circunstância. Muitas
vezes, alguns conseguem se despedir de quem ama antes que a morte chegue,
porém, mesmo assim, sofrem. A morte é uma verdade que a maioria das pessoas
desejaria que fosse mentira, por isso, cada um a concebe da forma que melhor a entende
para poder dar conta de lidar com a dor da perda inicial que se transforma na
consumação da ausência e na consequente saudade. Se para o adulto é difícil
lidar com isso, imagine para as crianças!
Não raro, vemos pessoas dizerem que “o vovô foi morar no
céu,” ou que ele “virou estrelinha”, ou ainda: “mamãe fez uma viagem muito
longa”. Essa é a melhor maneira de dizer isso às crianças? Sinceramente, não dá
para afirmar que uma maneira seja melhor do que a outra, pois cada criança, de
acordo com a faixa etária, permite uma abordagem diferenciada, entretanto, pode-se
alegar que tais comentários acerca da morte podem gerar ainda mais sofrimento à
criança, que, muitas vezes, tentará criar imaginariamente “formas” de conseguir
chegar até o vovô que foi morar no céu, ou ainda, causar desespero quando uma
pessoa querida for viajar achando que ela não irá voltar porque a mamãe foi
fazer uma viagem longa e também não voltou. No caso de dizer, por exemplo, que
a mãe foi fazer uma viagem muito longa, e a criança não tiver ido ao cemitério
porque esconderam isso dela, pode desencadear- lhe sentimentos hostis em
relação a essa mãe que era tão boa e que foi embora sem dar um telefonema, sem
dizer que iria, sem deixar uma carta, um endereço onde pudessem se encontrar,
sem falar quando voltaria e, mesmo, se voltaria. Em vez de elaborar o luto caso
tivesse sido informada sobre a morte da mãe, ela ficará presa a sentimentos
“ruins” que podem variar entre raiva, angústia, tristeza, abandono, solidão e sentimentos
de culpa.
É importante saber que não
existe idade para falar de morte com a criança, posto
que a morte não tem idade, acontece com qualquer um – independente de quantos
anos tenha. O cuidado a ser tomado é de falar honestamente sobre os fatos, não
ocultar nada que for necessário para sua compreensão, lembrando-se sempre de que
criança é literal e concreta, ou seja, histórias abstratas não a ajudarão a
entender o que você está querendo dizer, ou seja, se o avô virou estrelinha, a
criança olhará para o céu imaginando que uma das estrelas seja o avô.
Entretanto, o fato de, em certas noites, as estrelas não aparecerem, poderá causar
desespero na criança – julgando que o
perdera de vista, fantasiando o lugar onde ele deverá estar a ponto de não
aparecer no céu naquela noite, por
exemplo.
Criança
pode sim ir a velórios/enterros:
desde
que respeitada a sua vontade. Deve-se perguntar se deseja ir, caso não queira,
não deve ser levada.
Informações
não devem ser jogadas: a
criança deve conhecer a verdade, apresentada de forma responsável e consciente,
amparada por manejo com as palavras a fim de que compreenda os enunciados ditos
e se sinta acolhida: importante saber que haverá pessoas que estarão com ela e,
assim, não ficará sozinha.
E
quando a criança começar a questionar sobre a morte sem ter perdido alguém, o
que dizer? É
necessário que os próprios adultos aprendam a compreender a morte e a aceitá-la
a fim de que tenham o conceito construído dentro de si, para, posteriormente,
transmiti-lo a quem quer que seja. Quanto mais “árduo” for pensar no assunto, maior
dificuldade haverá para falar sobre ele. Dar exemplos de como a morte é vista
em outras culturas e religiões é uma forma de iniciar a conversa. Utilizar histórias
para auxiliar na compreensão, exemplificar abordando a vida dos seres vivos – usando
animais ou mesmo plantas para poder comentar sobre o ciclo de vida – são boas
estratégias para recorrem a esse tema.
E
quando não souber o que dizer, como agir? De
fato, existem situações em que somos – literalmente – colocados em uma “saia
justa”, não sabemos como sair. Nessas ocasiões, é essencial agir com
sinceridade e dizer que não sabe como explicar porque é um assunto um pouco
delicado, mas que procurará uma forma para poder explicar e, depois disso, vale
pesquisar sobre o tema, conversar com outras pessoas a respeito dele e buscar
orientação profissional, se for caso.
De fato, falar sobre a morte é um
grande desafio, que só será vencido se enfrentado. É preciso que não briguemos
com a nossa própria morte para que entendamos
a real condição da nossa espécie, não sendo, portanto, diferente para
ninguém, pois todos iremos passar por isso!
“A morte é como este pensamento
de Confúcio: “é melhor acender uma vela
do que amaldiçoar a escuridão:” é melhor ver a morte como uma libertação do
que como uma privação definitiva de quem amamos. Se a concebemos como a escuridão
não haverá luz, mas se acendemos a vela, damo-nos a chance de acender a
esperança dentro de nós para que continuemos, mesmo diante da ausência e da perda de quem amamos”.
(Josimara Neves)
“Acredito que a
criança, estando em formação, necessita construir conhecimentos múltiplos
acerca de temáticas distintas, vivenciar experiências enriquecedoras por meio
do convívio social e se fortalecer como indivíduo único que é. Portanto, é salutar
que a família, primeiramente, aborde o tema “morte” com os filhos, enaltecendo,
para isso, o valor que devemos dar à nossa própria vida, já que só existe
término para aquilo que um dia começou”. (Marília
Neves)
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