domingo, 18 de agosto de 2013

Psicoletrando



 
Se morrer é normal, por que é tão difícil falar de morte?

                                                                 Fonte: blog.cicloceap.com.br 
   Josimara Neves, psicóloga e escritora
                    (CRP-04/37147)
   Marília Neves, professora e escritora
  

Vida e morte são dois lados de uma mesma moeda, afinal, só se morre porque se vive, e todos sabem que a morte é uma das poucas certezas que se tem na vida. Ninguém sabe onde, nem quando e, muito menos, de que forma ela ocorrerá, mas tem ciência de que disso não há como escapar. Falando assim, até parece fácil entendê-la, contudo não é. A morte é um assunto tabu com o qual poucas pessoas sabem lidar, desconhecendo a maneira mais adequada de discorrer sobre ela. Basta se lembrar de algum velório ao qual tenha ido que se recordará das pessoas quietas, chorando, inconformadas. Recordará, também, de algumas sem saberem o que fazer quando uma criança, ainda muito pequena, chorava desesperadamente ao lado do ente querido que estava  sendo velado. E por que isso acontece?
É difícil ter uma única resposta, no entanto, o que se deduz é que a morte é tão pungente de se falar devido à dor da perda, da separação, da despedida sem volta, do “tchau definitivo” que chamamos de “adeus.” Não estamos preparados para nos despedir, não porque não tivemos tempo para isso, mas porque não fomos treinados para conviver com tal circunstância. Muitas vezes, alguns conseguem se despedir de quem ama antes que a morte chegue, porém, mesmo assim, sofrem. A morte é uma verdade que a maioria das pessoas desejaria que fosse mentira, por isso, cada um a concebe da forma que melhor a entende para poder dar conta de lidar com a dor da perda inicial que se transforma na consumação da ausência e na consequente saudade. Se para o adulto é difícil lidar com isso, imagine para as crianças!
Não raro, vemos pessoas dizerem que “o vovô foi morar no céu,” ou que ele “virou estrelinha”, ou ainda: “mamãe fez uma viagem muito longa”. Essa é a melhor maneira de dizer isso às crianças? Sinceramente, não dá para afirmar que uma maneira seja melhor do que a outra, pois cada criança, de acordo com a faixa etária, permite uma abordagem diferenciada, entretanto, pode-se alegar que tais comentários acerca da morte podem gerar ainda mais sofrimento à criança, que, muitas vezes, tentará criar imaginariamente “formas” de conseguir chegar até o vovô que foi morar no céu, ou ainda, causar desespero quando uma pessoa querida for viajar achando que ela não irá voltar porque a mamãe foi fazer uma viagem longa e também não voltou. No caso de dizer, por exemplo, que a mãe foi fazer uma viagem muito longa, e a criança não tiver ido ao cemitério porque esconderam isso dela, pode desencadear- lhe sentimentos hostis em relação a essa mãe que era tão boa e que foi embora sem dar um telefonema, sem dizer que iria, sem deixar uma carta, um endereço onde pudessem se encontrar, sem falar quando voltaria e, mesmo, se voltaria. Em vez de elaborar o luto caso tivesse sido informada sobre a morte da mãe, ela ficará presa a sentimentos “ruins” que podem variar entre raiva, angústia, tristeza, abandono, solidão e sentimentos de culpa.
É importante saber que não existe idade para falar de morte com a criança, posto que a morte não tem idade, acontece com qualquer um – independente de quantos anos tenha. O cuidado a ser tomado é de falar honestamente sobre os fatos, não ocultar nada que for necessário para sua compreensão, lembrando-se sempre de que criança é literal e concreta, ou seja, histórias abstratas não a ajudarão a entender o que você está querendo dizer, ou seja, se o avô virou estrelinha, a criança olhará para o céu imaginando que uma das estrelas seja o avô. Entretanto, o fato de, em certas noites, as estrelas não aparecerem, poderá causar desespero na criança –  julgando que o perdera de vista, fantasiando o lugar onde ele deverá estar a ponto de não aparecer  no céu naquela noite, por exemplo.
Criança pode sim ir a velórios/enterros: desde que respeitada a sua vontade. Deve-se perguntar se deseja ir, caso não queira, não deve ser levada.
Informações não devem ser jogadas: a criança deve conhecer a verdade, apresentada de forma responsável e consciente, amparada por manejo com as palavras a fim de que compreenda os enunciados ditos e se sinta acolhida: importante saber que haverá pessoas que estarão com ela e, assim, não ficará sozinha.
E quando a criança começar a questionar sobre a morte sem ter perdido alguém, o que dizer? É necessário que os próprios adultos aprendam a compreender a morte e a aceitá-la a fim de que tenham o conceito construído dentro de si, para, posteriormente, transmiti-lo a quem quer que seja. Quanto mais “árduo” for pensar no assunto, maior dificuldade haverá para falar sobre ele. Dar exemplos de como a morte é vista em outras culturas e religiões é uma forma de iniciar a conversa. Utilizar histórias para auxiliar na compreensão, exemplificar abordando a vida dos seres vivos – usando animais ou mesmo plantas para poder comentar sobre o ciclo de vida – são boas estratégias para recorrem a esse tema.
E quando não souber o que dizer, como agir? De fato, existem situações em que somos – literalmente – colocados em uma “saia justa”, não sabemos como sair. Nessas ocasiões, é essencial agir com sinceridade e dizer que não sabe como explicar porque é um assunto um pouco delicado, mas que procurará uma forma para poder explicar e, depois disso, vale pesquisar sobre o tema, conversar com outras pessoas a respeito dele e buscar orientação profissional,  se for caso.
De fato, falar sobre a morte é um grande desafio, que só será vencido se enfrentado. É preciso que não briguemos com a nossa própria morte para que entendamos  a real condição da nossa espécie, não sendo, portanto, diferente para ninguém, pois todos iremos passar por isso!
“A morte é como este pensamento de Confúcio: “é melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão:” é melhor ver a morte como uma libertação do que como uma privação definitiva de quem amamos. Se a concebemos como a escuridão não haverá luz, mas se acendemos a vela, damo-nos a chance de acender a esperança dentro de nós para que continuemos, mesmo  diante da ausência e da perda de quem amamos”. (Josimara Neves)

“Acredito que a criança, estando em formação, necessita construir conhecimentos múltiplos acerca de temáticas distintas, vivenciar experiências enriquecedoras por meio do convívio social e se fortalecer como indivíduo único que é. Portanto, é salutar que a família, primeiramente, aborde o tema “morte” com os filhos, enaltecendo, para isso, o valor que devemos dar à nossa própria vida, já que só existe término para aquilo que um dia começou”. (Marília Neves)






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