segunda-feira, 13 de janeiro de 2014




Psicoletrando


Como explicar “assuntos-tabus” para crianças?

Josimara Neves, psicóloga e escritora

   Marília Neves, professora e escritora







Se a criança chega para a mãe e pergunta:
“___ Mãe, o que é gay?”
E a genitora, por sua vez, responde:
“Gay é homossexual!”
Ao dizer isso, a mãe, incomodada com a pergunta do filho, fala rapidamente e sai tentando se esquivar de novos questionamentos.
A criança fica insatisfeita e confusa com a resposta. Chega à escola e vai perguntar para a professora de Língua Portuguesa:
“____ Professora, o que é um gay-homossexual?”
 A docente engole  em seco e responde rapidamente, virando-lhe as costas:
“___ É um pleonasmo!”
A criança coça a cabeça, que, por sinal, pega fogo, vai para o pátio, senta-se e fica tentando entender.
Se gay é um homossexual e gay-homossexual é um pleonasmo, então ser gay deve ser uma coisa muito difícil de entender (pensa a criança)...
Apesar de ter refletido, ainda não sabia ao certo o que era “gay”. Assim, resolve, ao voltar para o lar, perguntar ao genitor:
“____ Pai, o que é gay?”
O pai bebia um copo de suco na hora em que o filho o questionara, mas, imediatamente, cospe o suco, mostrando-se surpreso com a pergunta inesperada.
            “___ Gay é homem que gosta de homem!”
             Fala tão rápido quanto a esposa e a professora do filho. Não sabia como continuar o assunto. A criança, por sua vez, fica mais satisfeita do que com as outras duas respostas, mas ainda não compreendia o suficiente.
             Mediante a ilustração apresentada, percebemos que falar de assuntos-tabus é uma dificuldade comum na sociedade de um modo em geral. Em vez de enfrentarem o confronto, as pessoas fogem e não sabem que, com isso, acabam contribuindo direta ou indiretamente para a proliferação de conceitos mal formulados, preconceitos arraigados, crenças discriminatórias, traumas e bloqueios. No caso supracitado, a criança não ficou sabendo ao certo o que é ser “gay!” A prova disso é que, quando o seu avô paterno a beijou, dizendo-lhe que a amava, ela logo respondeu:
               “___ Então o senhor é gay, né, vô?”
                Imaginem o constrangimento desse avô expressando os seus sentimentos para o neto, que, inocentemente, julga-o como gay só porque o seu genitor lhe havia dito que “gay é homem que gosta de homem.”
                É isso o que acontece quando hiatos são construídos no imaginário infantil: ideias equivocadas transformam-se em comportamentos inapropriados. Portanto, é necessário que pais, educadores e cuidadores aprendam a se comunicar com as crianças e, caso sejam pegos de surpresa por questionamentos como esse e não saibam explicá-los, usem a sinceridade, dizendo:
               “___ Sinceramente, não sei como explicar agora, mas irei pesquisar e, amanhã,  eu lhe darei uma resposta bem legal para a sua dúvida, tá bom?”
                Utilizem tais palavras e pesquisem sobre como falar, recorram à internet, ganhem tempo para se programarem e não deixem de retomar a questão no dia seguinte,  prazo combinado para responder à questão para a criança.
Algumas dicas:

Nunca diga um assunto pela metade: ser homossexual não é unicamente homem gostar de homem, e mulher de mulher. É importante falar sobre escolhas, diferenças, sentimentos, para que o conceito fique “fechado” para a criança.
Ex: Falar que Saci-pererê é um homem negro que tem uma perna só. Nesse caso, omite-se uma informação necessária: ele é um personagem lendário, criado por Monteiro Lobato.

Se a criança perceber que você ficou constrangido ao responder: ela irá perguntar ainda mais, pois, enquanto não receber a resposta que a satisfaça, não irá parar de perguntar.
Ex: o filho fica gritando: “___ Mãe! Oh, mãe! Mãeeeeeeeeeeee!” E quanto mais a mãe não responde, mas ele a chama. Se a mãe responde, pode ser que nem se lembre mais por que a havia chamado.

Pesquisar: ninguém sabe tudo, então é comum não saber como responder a questões que envolvam temáticas polêmicas e com muito juízo de valores, tais como: sexo, homossexualidade, órgãos genitais, gravidez, parto etc. Porém, é fundamental pesquisar sobre tais assuntos e encontrar a melhor forma de transmitir o conteúdo para cada criança, levando-se em consideração a idade e a forma como ela compreende o mundo.


Lembre-se: a melhor forma de acabar, ou pelo menos, diminuir os tabus, é naturalizá-los!



Nenhum comentário:

Postar um comentário