Psicoletrando
Como explicar “assuntos-tabus” para
crianças?
Josimara Neves,
psicóloga e escritora
Marília Neves, professora e escritora
Fonte: www.slideshare.net
Se a criança
chega para a mãe e pergunta:
“___ Mãe, o
que é gay?”
E a genitora, por
sua vez, responde:
“Gay é
homossexual!”
Ao dizer isso,
a mãe, incomodada com a pergunta do filho, fala rapidamente e sai tentando se
esquivar de novos questionamentos.
A criança fica
insatisfeita e confusa com a resposta. Chega à escola e vai perguntar para a
professora de Língua Portuguesa:
“____
Professora, o que é um gay-homossexual?”
A docente engole em seco e responde rapidamente, virando-lhe as
costas:
“___ É um
pleonasmo!”
A criança coça
a cabeça, que, por sinal, pega fogo, vai para o pátio, senta-se e fica tentando
entender.
Se gay é um
homossexual e gay-homossexual é um pleonasmo, então ser gay deve ser uma coisa
muito difícil de entender (pensa a criança)...
Apesar de ter
refletido, ainda não sabia ao certo o que era “gay”. Assim, resolve, ao voltar
para o lar, perguntar ao genitor:
“____ Pai, o
que é gay?”
O pai bebia um
copo de suco na hora em que o filho o questionara, mas, imediatamente, cospe o
suco, mostrando-se surpreso com a pergunta inesperada.
“___ Gay é homem que gosta de
homem!”
Fala tão rápido quanto a esposa e a
professora do filho. Não sabia como continuar o assunto. A criança, por sua
vez, fica mais satisfeita do que com as outras duas respostas, mas ainda não
compreendia o suficiente.
Mediante a ilustração apresentada,
percebemos que falar de assuntos-tabus é uma dificuldade comum na sociedade de
um modo em geral. Em vez de enfrentarem o confronto, as pessoas fogem e não
sabem que, com isso, acabam contribuindo direta ou indiretamente para a
proliferação de conceitos mal formulados, preconceitos arraigados, crenças
discriminatórias, traumas e bloqueios. No caso supracitado, a criança não ficou
sabendo ao certo o que é ser “gay!” A prova disso é que, quando o seu avô
paterno a beijou, dizendo-lhe que a amava, ela logo respondeu:
“___ Então o senhor é gay, né,
vô?”
Imaginem o constrangimento
desse avô expressando os seus sentimentos para o neto, que, inocentemente, julga-o
como gay só porque o seu genitor lhe havia dito que “gay é homem que gosta de
homem.”
É isso o que acontece quando
hiatos são construídos no imaginário infantil: ideias equivocadas
transformam-se em comportamentos inapropriados. Portanto, é necessário que
pais, educadores e cuidadores aprendam a se comunicar com as crianças e, caso
sejam pegos de surpresa por questionamentos como esse e não saibam explicá-los,
usem a sinceridade, dizendo:
“___ Sinceramente, não sei como
explicar agora, mas irei pesquisar e, amanhã, eu lhe darei uma resposta bem legal para a sua
dúvida, tá bom?”
Utilizem tais palavras e
pesquisem sobre como falar, recorram à internet, ganhem tempo para se programarem
e não deixem de retomar a questão no dia seguinte, prazo combinado para responder à questão para
a criança.
Algumas
dicas:
Nunca diga um assunto pela metade:
ser homossexual não é unicamente homem gostar de homem, e mulher de mulher.
É importante falar sobre escolhas, diferenças, sentimentos, para que o conceito
fique “fechado” para a criança.
Ex:
Falar que Saci-pererê é um homem negro que tem uma perna só. Nesse caso,
omite-se uma informação necessária: ele é um personagem lendário, criado por Monteiro
Lobato.
Se a criança perceber que você ficou
constrangido ao responder: ela irá perguntar ainda mais, pois, enquanto
não receber a resposta que a satisfaça, não irá parar de perguntar.
Ex:
o filho fica gritando: “___ Mãe! Oh,
mãe! Mãeeeeeeeeeeee!” E quanto mais a mãe não responde, mas ele a chama. Se
a mãe responde, pode ser que nem se lembre mais por que a havia chamado.
Pesquisar: ninguém sabe tudo,
então é comum não saber como responder a questões que envolvam temáticas
polêmicas e com muito juízo de valores, tais como: sexo, homossexualidade,
órgãos genitais, gravidez, parto etc. Porém, é fundamental pesquisar sobre tais
assuntos e encontrar a melhor forma de transmitir o conteúdo para cada criança,
levando-se em consideração a idade e a forma como ela compreende o mundo.
Lembre-se: a melhor forma de acabar, ou
pelo menos, diminuir os tabus, é naturalizá-los!